cavalo pantaneiro
A Tropa da Rancharia


A história vai para traz. Rancharia foi a primeira fazenda do meu pai, chamado Sinjão de Barros – nos papéis João Wenceslau Leite de Barros;
Meu pai gostava do cavalo poconeano que encomendava a amigos de Cáceres e Poconé para colocar como reprodutor na eguada. Não gostava de cavalos de corrida e via o animal apenas como instrumento de trabalho. Lembro-me, entretanto, do troca-troca da tropa pela peste de cadeira. Estudante, quando nas férias ia participar do trabalho de gado nem sempre encontrava a minha montada do ano anterior. Mas, ainda ao falecer, em 1949, meu pai tinha na Rancharia um reprodutor poconeano, um tordilho negro, carnudo, pescoço grosso, pequeno, mas garboso – chamava Biriba.
Nossa partilha foi pacífica e amigável nas terras, gado e cavalos. Mas, no finalzinho me sobrou uma disputa, por sorteio, com um cunhado, entre dois reprodutores: um mestiço inglês que havia recentemente sido comprado para a fazenda e o poconeano Biriba. O sorteio foi feito em tom de caçoada porque ninguém queria o poconeano. Ganhei no sorteio e escolhi o mestiço. O Biriba, refugo de todos, foi para o cunhado que, imediatamente, o castrou. Tempos depois soube que ele se tornou um cavalo de excepcionais qualidades para o serviço. Mas eu continuava feliz com o mestiço inglês, um alazão grande e belo. O poconeano era o “pelo duro”, sem raça, sem porte, insignificante.
Com o tempo fui passando de mestiço em mestiço até que comprei um reprodutor puro sangue inglês, com pedigree, filho de um ex-campeão do Grande Prêmio de São Paulo. Era negro, de pelo brilhante, uma pintura, chamava México. Afinal me senti como um realizado criador de cavalos. Os filhos do México foram nascendo belos e ganhadores nas corridas. Mas, pouco a pouco, foram mostrando também o que não queríamos ver: a falta de rusticidade. Emagreciam facilmente e, com o surgimento da anemia infecciosa morriam. Os pelos duros suportavam, mas já eram poucos. Sentimos que nossa tropa já não daria conta do trabalho e resolvemos comprar cavalos de serviço. Havia uma condição, teriam que ser fêmeas, potrancas, fáceis de encontrar. A compra foi realizada. Logo fomos notando as preferências dos vaqueiros pelas potrancas.
Tínhamos na fazenda um negrão de mais de 1m80, forte, que, com certeza pesava mais de 90k., malvado na espora e no chicote. Um dia, vi-o encilhando uma potranca, das menores e selada. Chamei-o dizendo que, com o peso que tinha, deveria procurar um animal mais forte. Sorriu compreensivo, mas achava que não deveria mudar de montada, a Seladinha agüentava bem, dia inteiro e ele não a trocava por nenhum desses mestiços da tropa que, com duas tocadas ficavam de ventas abertas, explicou. Aceitei
Da varanda pude ver, na saída da turma, o negão montado na Seladinha com os pés quase tocando a macega mais alta, dando risada e feliz. Lembrei-me do velho Sinjão, meu pai, Lembrei-me do enjeitado Biriba. Aceitei o engano.
Como não havia o que discutir, decidimos criar o cavalo pantaneiro. Fiz uma ressalva ao meu filho Luciano: queria criar o melhor, não aceitava o mais ou menos. Junto a discreto sorriso, vi os seus olhos brilharem. E assim começou a paixão de Luciano de Barros.
Nunca esquecendo a lição da Seladinha Luciano passou a buscar nas matrizes a excelência funcional. Adotou o sistema de domar e colocar no serviço todas as potrancas do plantel. Na lida do campo elas deveriam mostrar as qualidades da Seladinha, destreza, habilidade, resistência e resistência